A armadilha do natural

Fica descansada. Com este artigo não pretendo insultar a tua inteligência com um conjunto de banalidades do estilo “Nem tudo o que é natural é inócuo”, ou “Há que seguir apenas a Ciênciahhh, única dona da Verdhadehhh”, etc.

O que pretendo examinar contigo aqui é a tendência, que provavelmente ambas temos, a querer viver de modo estritamente natural.

Sinto a necessidade de falar disto porque é um lugar onde eu também me coloco em geral, e onde até já fui muito mais radical.

Cresci num ambiente de ligação às medicinas naturais; foi a minha mãe que me introduziu à fitoterapia, ao herbalismo e à cosmética natural já em criança. Cresci como vegetariana instintiva desde a primeira infância. Depois da primeira licenciatura em campo literário, estudei formalmente naturopatia e fiz muitas outras formações no âmbito das medicinas naturais antes de voltar à Universidade para me tornar nutricionista mas mantendo o foco na alimentação de base vegetal. Enfim, é claro que eu entendo perfeitamente a posição das pessoas que se sentem incómodas com a perspetiva de tomar determinados suplementos ou medicamentos inclusivamente se forem de origem natural. E essa incomodidade vem do não querer depender de nada que seja produzido num laboratório e vendido num frasco ou embalagem. A ideia é obter tudo através da alimentação e do estilo de vida. Concordo com esta perspetiva de forma geral, e digamos que me guia num 80% das escolhas pessoais e das sugestões que faço em consulta. No entanto, com base em estudos e na minha experiência pessoal e profissional, agora vejo muitas coisas por um prisma diferente, Um prisma que te quero convidar a descobrir também.

Vamos fazer exemplos concretos, que vejo com muita frequência em consulta:

-Vegetarianas/veganas/macrobióticas que não querem suplementar a vitamina B12 porque “não é natural/ o nosso intestino a fabrica/ o professor ou a professora de macrobiótica XYZ não toma e goza de excelente saúde/li um artigo que dizia que é tóxica” e por ali fora.

-Mães que não querem suplementar os recém nascidos com vitamina D porque “não faz falta nenhuma/é tóxica/ não é natural/ basta o sol”

-Grávidas que não querem tomar fólico ou folatos porque “já como muitos legumes”.

-Pessoas que preferem voltar ou ficar a comer apenas carne/peixe/ovos como alimento proteico porque “as leguminosas fazem-me gases/inflamam o meu intestino”, etc, e recusam tomar um simples comprimido pontual de uma enzima digestiva que as torna perfeitamente toleráveis porque “ai não, se o meu corpo recusa um alimento, eu vou ouvi-lo”.

-Mulheres profundamente anémicas porque têm menstruações abundantes (ou não necessariamente muito abundantes; vamos voltar sobre isto mais em baixo) mas querem recuperar a sua ferritina apenas pela alimentação, apesar de existirem alguns tipos de suplementos de ferro que não provocam obstipação nem outros problemas digestivos.

-Mulheres nas mais variadas situações que não querem suplemento de magnésio porque “prefiro alterar a alimentação”.

Acabei de enumerar os casos que mais vejo e que mais tempo de educação me levam na consulta. Assim que espero que a partir de agora poderei poupar este tempo enviando-lhes este artigo.

E agora é o momento de introduzir o conceito de mismatch evolutivo, ou seja o desencontro entre a nossa evolução como espécie e as condições da vida moderna.

Um mismatch é um desencontro. Uma contradição. O facto de vivermos em condições completamente diferente dos nossos antepassados mais remotos cria alguns desencontros com a nossa fisiologia.

Por exemplo, a nossa evolução como espécie favoreceu os genes dos indivíduos capazes de armazenar mais gordura no seu organismo, para fazer frente aos períodos de escassez alimentar. Mas agora, a facilidade com a que armazenamos gordura existe num contexto de hiper-abundância alimentar, onde deixámos de morrer de fome e passámos a morrer por doenças devidas a excessos.

A nossa espécie também evoluiu estando fisicamente muito ativa durante a vida inteira. O simples facto de procurar alimento, escapar dos predadores, e sobreviver a climas extremos, implicava uma grande quantidade de movimento físico. É por isso que o sedentarismo é tão nefasto para a nossa saúde. E se não dispormos de fantásticos espaços ao ar livre para realizar exercício, não nos ajudará nada a recusa de ir ao ginásio por não ser “natural”.

É feio? É?

É anti-natural? É.

O ambiente é uma caca? É.

É alienante ver pessoas a correr na passadeira em frente ao ecrã de uma grande TV, ou a levantar pesos de fones nos ouvidos? É.

Mas se vives num bairro feio, num ambiente urbano cheio de carros, ou nas proximidade de campos amplamente borrifados por pesticidas, tens alguma ideia melhor para não ser uma “batata de sofá”?

Aquela bicicleta estática que usas apenas como cabide há anos, achas mesmo que algum dia vais ter inspiração para a usar como deve ser? E não, infelizmente caminhar 10 minutos por dia para fazer as compras ou ir trabalhar, não é de todo suficiente.

Outro exemplo. É muito difícil encontrar mulheres em idade fértil com níveis aceitáveis de ferritina (as reservas de ferro). Sensivelmente entre os 15 e os 49 anos, o Global Burden of Disease estima que os casos de anemia e de deficiência de ferro são três vezes mais comuns nas mulheres do que nos homens. Em países ricos, entre 10% a 15% das mulheres têm anemia. E a deficiência de ferro sem anemia ainda é muito maior, atingindo o 40% num extenso estudo canadiense, demonstrando que não é panas um problema dos países pobre onde existe muita desnutrição. Ou seja, quando se mede ferritina e não apenas hemoglobina, o problema é muito mais prevalente do que as estatísticas de anemia mostram. O corpo pode ter ferro suficiente para evitar anemia clínica, mas insuficiente para funções cognitivas, imunológicas e de energia. Porque acontece este fenómeno? Será que as mulheres do mundo ocidental não comem suficientes alimentos ricos em ferro?

Não. As mulheres saudáveis e sem outras causas de anemias ou ferropenia, têm deficit de ferro pelo simples facto de menstruar, e não necessariamente com fluxo excessivo.

As nossas antepassadas menstruavam menos frequentemente: entravam na puberdade mais tarde, ficavam logo grávidas e viviam basicamente o resto da idade reprodutiva estando grávidas ou a amamentar (embora, passados alguns meses, seja perfeitamente possível voltar a menstruar mesmo estando a amamentar).

Portanto as nossas antepassadas não perdiam tanto sangue como nós. Nós hoje começamos a menstruar mais cedo, deixamos de o fazer mais tarde, e no arco da nossa vida menstruamos centenas de vezes, porque temos muito menos filhos ou nenhuns. Isto explica porque é que tantas mulheres hoje têm problemas com o ferro. E não há dieta à base de mamutes que consiga levantar uma ferritina de 5.Isso só vai com suplemento.

Numa óptica radical, uma solução natural seria fazer 18 filhos a partir dos 11-12 anos de idade. Não sei tu, mas eu prefiro suplementar o ferro.

Hoje em dia o ferro não tem sequer porque causar obstipação: temos o bisglicinato ou o lipossomal, ou a lactoferrina que cumprem lindamente a sua função sem causar desconforto intestinal.

E é possível tomar de forma preventiva, por exemplo durante toda a duração do período e dois ou três dias depois do seu fim.

A vitamina B12 é outro exemplo de mismatch. Se não ouviste ainda, tenho um episódio do podcast que explica porque é que não é possível obter de fontes vegetais, e que as fontes animais vêm basicamente de suplemento subministrado ao gado, e que os nossos antepassados estavam expostos a uma quantidade de bactérias productoras de B12 que hoje em dia nem sonhamos.. Aqui também, eu prefiro tomar um comprimido de B12 que passar a vida entre parasitas e intoxicações alimentares.

A vitamina D? Outro mismatch. Só mesmo pescadores ou agricultores que passam a vida sob o sol e sem proteção é que têm bons níveis de vitamina D sem suplemento. Mas o melanoma existe também. Os nossos antepassados evoluíram nus ou semi-nus sob o sol da Africa. Mas nós que usamos roupa e trabalhamos em ambientes fechados, por muito solarengo que seja o nosso clima, não chegamos nem perto daqueles níveis de exposição solar. E se o fizermos, especialmente se pertencemos a grupos étnicos de pele não escura, corremos riscos significativos.

O magnésio? Outro mismatch clássico. Evoluímos num ambiente extremamente rico em magnésio. Depois inventamos muitas formas de o fazer diminuir drasticamente do ambiente, et voilá: uma fisiologia que precisa de magnésio e que não aprendeu a armazená-lo porque era abundante, num universo alimentar actual escasso neste mineral.

Folatos: aqui o mismatch é de forma química combinada com a genética de população. A distinção fundamental é:

-Existe o folato natural (nos alimentos, especialmente folhas verdes), que está na sua forma ativa, e que o corpo usa diretamente;

-E existe o ácido fólico sintético (suplementos, Folicil da vida etc), que está na forma inativa, e precisa de ser convertida pela enzima metiltetrahidrofolatoreductase, conhecida pelos amigos como MTHFR.

Porquê suplementar folatos antes de engravidar?

O tubo neural fecha entre os dias 21-28 após a conceção, antes de a maioria das mulheres saber que está grávida. A suplementação tem de começar antes da conceção, idealmente 1-3 meses antes.

A dieta ancestral era rica em folatos naturais: folhas verdes silvestres, leguminosas, fígado. A dieta moderna ocidental fornece muito menos. Uma mulher com dieta típica ocidental dificilmente atinge os níveis de folato que o organismo precisa nessa janela crítica só através da alimentação.

Mas há mais: até 60% da população tem variantes no gene MTHFR que criam uma necessidade funcional de folatos maior, e reduzem a capacidade de converter ácido fólico (a forma sintética dos suplementos) na forma ativa que o organismo realmente usa: o metilfolato.

Para estas mulheres há um duplo problema:

- Precisam de mais folato funcional;

- O suplemento standard (ácido fólico) é precisamente a forma que convertem mal. E há dados que sugerem que o ácido fólico não convertido pode acumular-se e ter efeitos adversos a longo prazo.

A solução é suplementar com metilfolato (5-MTHF) a forma já ativa, que não precisa de ser convertida e que é aliás a forma encontrada naturalmente nos alimentos.

A suplementação pré-concepcional existe porque a dieta moderna rompeu com o que o organismo evolutivamente "esperava" encontrar em abundância. E para uma proporção significativa de mulheres, o suplemento mais prescrito (ácido fólico) não é a melhor forma, sendo o metilfolato mais eficaz e igualmente acessível.

Por estas razões, a suplementação com 400-800 µg/dia de folato peri-concepcional reduz o risco de defeitos do tubo neural em 50-70%. É uma das intervenções preventivas com melhor evidência em toda a medicina. Demorou cerca de 18 anos em ser implementada desde as primeiras evidências. Vale a pena desprezá-la por não ser “natural”?

Vamos ao mismatch das leguminosas? Já é raro ver alguém em consulta que não me diga que não as tolera. Deviam ser parte da base da dieta mediterrânea, mas cada vez mais brilham pela sua escassez porque as pessoas estão a desacostumar as bactérias da microbiota intestinal a este tipo de fibras e outros hidrato de carbono. A flatulência provocada por leguminosas é frequentemente interpretada como um sinal de que "o corpo não tolera" esses alimentos. A interpretação evolutiva é precisamente o inverso: é um sinal de desuso de uma capacidade que o microbioma ancestral possuía de forma robusta. O primeiro passo consiste em re-fazer este percurso ao contrário, criando no nosso intestino a possibilidade de vingar para determinadas estirpes de bactérias benéficas capazes de lidar com leguminosas. E se mesmo assim for precisa alguma ajuda (infelizmente estamos ainda muito longe de compreender a nossa microbiota), existem suplementos de enzimas como a alfa-galactosidase que resolvem completamente o problema dos gases e do inchaço abdominal. A alfa-galactosidase funciona como prótese enzimática de algo que o microbioma ancestral fazia de forma distribuída e contínua. O que há de mal nisso? É preferível empobrecer drasticamente a nossa dieta, reduzindo os alimentos proteicos apenas aos que mais parafernália de produção precisam, só para não ter que engolir um comprimido?

Vamos fazer um teste. Responde mentalmente às seguintes perguntas:

  1. Vives numa caverna?

  2. Alimentas-te apenas de bagas, raízes e animais caçados por ti?

  3. Evitas escovar os dentes porque nem a escova nem a pasta de dentes crescem nas árvores, e os nossos antepassados não as usavam?

  4. Dormes no chão, por cima de uma pele de urso/mamute/tigre porque os nossos antepassados não tinham cama nem colchão?

  5. Andas sem sapatos na rua?

  6. Recusas-te a usar papel higiénico e/ou o bidet por serem modernices?

Se respondeste “não” à maioria destas perguntas, será então que podes reconsiderar a tua ideia de “natural”?

Os nossos dentes não foram feitos para serem escovados, os nossos pés não estão desenhados para andar de sapatos, os nossos olhos não estão desenhados para a luz artificial depois do pôr do sol, ou para usar óculos quando necessário…no entanto, salvo escolhas de vida radicais, não questionamos a utilidade destas invenções.

Flexibilizar a perspectiva sobre o conceito de “natural” não significa aceitar incondicionalmente qualquer forma de afastamento da natureza. Por exemplo é possível respeitar a nossa fisiologia baixando as luzes e evitando ecrãs à noite, sem ter que abdicar de qualquer contato com a eletricidade e a tecnologia digital. É possível respeitar a nossa fisiologia consumindo sobretudo alimentos e não produtos. E sim, é possível respeitar a nossa fisiologia inclusive tomando suplementos que vêm cobrir o hiato ou mismatch entre a nossa fisiologia pré-histórica e o nosso estilo de vida e ambiente moderno. 

No próximo artigo, falaremos das armadilhas que o próprio conceito de mismatch nos pode tender. Para já, termino com a consideração de que não há uma linha definida e bem marcada entre o excesso de suplementos/medicamentos e a sua justa medida. Como em tudo o que caracteriza a Vida, o equilíbrio é dinâmico e consiste num fluir inconstante entre arrancar, abrandar, tropeçar, travar a fundo e recomeçar, avançar e recuar. E na afinação desta maravilhosa balança de precisão que é a nossa sensibilidade individual.

Exatamente como o lema do Podcast Sanity Fair que baptizei de Estado Transitório de Quase Equilíbrio.

É esse o equilíbrio que desejo para mim e para ti.

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