A natureza como argumento de venda

No artigo passado, explorei o conceito de mismatch evolutivo: o salto, a divergência entre aquilo que a nossa fisiologia prevê por ser baseada na nossa evolução como espécie, e o estilo de vida moderno. E de como às vezes, a aspiração a um estilo de vida natural nos impede ver onde este mismatch nos coloca numa posição de ter que recorrer a meios artificiais de manter a saúde, com suplementos ou outros recursos. Não porque a nossa fisiologia seja deficiente, mas porque ela acontece num meio diferente ao que seria o seu cenário natural.

Neste artigo vamos explorar o outro lado da medalha, ou seja as ocasiões nas quais a indústria usa o argumento do mismatch para vender a ideia que determinados produtos sejam a resposta.


No artigo anterior, escrevi: 


As mulheres saudáveis e sem outras causas de anemias ou ferropenia, têm deficit de ferro pelo simples facto de menstruar, e não necessariamente com fluxo excessivo. As nossas antepassadas menstruavam menos frequentemente: entravam na puberdade mais tarde, ficavam logo grávidas e viviam basicamente o resto da idade reprodutiva estando grávidas ou a amamentar (embora, passados alguns meses seja perfeitamente possível voltar a menstruar mesmo estando a amamentar). Portanto as nossas antepassadas não perdiam tanto sangue como nós. Nós hoje começamos a menstruar mais cedo, deixamos de o fazer mais tarde, e no arco da nossa vida menstruamos centenas de vezes, porque temos muito menos filhos ou nenhuns. Isto explica porque é que tantas mulheres hoje têm problemas com o ferro. E não há dieta à base de mamutes que consiga levantar uma ferritina de 5. Isso só vai com suplemento. Numa óptica radical, uma solução natural seria fazer 18 filhos a partir dos 11-12 anos de idade. Não sei tu, mas eu prefiro suplementar o ferro”.

Portanto, sim, existe um mismatch entre a nossa fisiologia e o estilo de vida moderno, sensivelmente o facto de não ter tantos filhos ou não os ter de todo. Basicamente, o facto de termos opções em relação à maternidade. A nossa fisiologia não prevê que se possa menstruar tantas vezes e durante tantos anos, e nós o fazemos apesar disto. 

Eis então que a indústria  farmacêutica impugna este argumento para propor uma solução brilhante ao problema: porquê limitar-nos a suplementar o ferro quando podemos suprimir diretamente a menstruação em todas as mulheres independentemente da necessidade de contracepção? No fundo, menstruar “é anti-natural”! Muito mais natural tomar hormonas sintéticas, seja em forma de pílula, injeção ou outros aparelhos inseridos em orifícios ou debaixo da pele. O argumento baseia-se na premissa de que os ovários têm uma função meramente reprodutora. Quando não queremos usufruir desta função, podemos tranquilamente “congelar” os nossos ovários e pô-los fora de uso com doses uniformes de hormonas sintéticas. 

O problema é que os ovários não servem apenas para a função reprodutora. 

Eles regulam imensas funções na nossa fisiologia, afetando praticamente todo o organismo.

Os ovários funcionam, acima de tudo, como glândulas endócrinas. Produzem estrogénios, progesterona e testosterona, hormonas que circulam pelo sangue e exercem efeitos protetores em múltiplos sistemas. A nível cardiovascular, os estrogénios promovem a vasodilatação, protegem o revestimento interno dos vasos sanguíneos e melhoram o perfil lipídico.

A nível ósseo, os estrogénios são essenciais para manter a densidade mineral dos ossos. Os ovários influenciam também o metabolismo da glicose e da insulina, contribuindo para a prevenção da diabetes tipo 2, e participam na regulação do sistema imunitário, com células imunes residentes que contribuem para o equilíbrio do organismo. Outros efeitos menos conhecidos incluem a neuroproteção, e a regulação do humor.

Ora, é claro que a supressão da atividade ovariana acontece por um mecanismo de feedback negativo: quando já existem altos níveis de hormonas circulantes, fornecidos pela pílula ou outros sistemas, os ovários deixam de se ralar em produzir mais. Portanto é claro que não deixamos de ter hormonas, antes pelo contrário. Mas há diferenças significativas entre os efeitos sistémicos das hormonas naturais que o nosso ovário produz, e os efeitos sistémicos das hormonas sintéticas. Ou seja, essa diferença tem consequências reais no organismo.

Os contracetivos hormonais usam versões sintéticas das hormonas, que o organismo processa de forma diferente, especialmente no fígado.

É precisamente no fígado que surgem muitas das diferenças mais importantes. As hormonas sintéticas da pílula estimulam o fígado a produzir mais proteínas do que o normal, incluindo algumas que estimulam a coagulação do sangue. É por isso que os contracetivos combinados aumentam ligeiramente o risco de tromboses (coágulos no sangue) e de AVC. Obviamente isto não acontece com as  nossas hormonas naturais.

A nível do metabolismo em geral, a contracepção hormonal combinada altera vários valores no sangue: lípidos, marcadores de inflamação, entre outros. Com as hormonas naturais, estas alterações não acontecem.

Os contracetivos hormonais podem também dificultar a regulação do açúcar no sangue e alterar os níveis de outras hormonas importantes, como as tiroideias e a vitamina D, algo que as hormonas do próprio corpo não fazem em condições normais.

O etinilestradiol (estrogenio sintético) estimula ainda o sistema renina-angiotensina, podendo elevar a pressão arterial, ao contrário da progesterona natural, que tem efeito antimineralocorticoide.


Em suma, os ovários são órgãos com uma fisiologia rica e diversificada, cujos efeitos se estendem muito além da reprodução. Quando suprimimos a sua função, deixamos de usufruir dos efeitos benéficos das hormonas que eles produzem. Será assim tão brilhante a ideia de suprimir o ciclo menstrual porque não é “natural”? E de o substituir com hormonas sintéticas faseadas de forma a ter falsas menstruações mensais para nos dar segurança?


E agora, outro exemplo de mau uso do argumento do mismatch para favorecer a ideia da necessidade de determinados tipos de medicação.

A medicina, nos últimos anos, tem estado a tentar resgatar a imagem da terapia substitutiva hormonal para a menopausa, do descrédito no qual caiu há cerca de 30 anos.

A Theresa Cresnshaw morreu aos 59 anos de cancro do ovário. Talvez tivesse tratado com excessiva seriedade essa terrível condição médica chamada “menopausa”…


A ideia subjacente é que a menopausa é uma condição de deficiência de hormonas, que portanto devem ser repostas. Este ponto de vista está a voltar em auge inclusivamente em ambientes “alternativos” que pretendem enquadrar a menopausa numa óptica positiva.

Segundo esta narrativa, a deficiência de hormonas acontece porque neste momento histórico, vivemos mais tempo. Antigamente, as mulheres não chegavam à idade da menopausa (sic!) e portanto não tinham que encarar todas as maleitas que esta condição traz.

É engraçado notar como não se dá ênfase nenhuma ao facto evidente que é suposto não termos produção ovárica de estrogénios e progesterona na menopausa. 

Mas por algum motivo, há uma tendência em considerar que nos falta alguma coisa.

Mais: a terapia de substituição hormonal é baseada em hormonas que se suprimem com extrema superficialidade na vasta maioria das mulheres em idade fértil, ou seja na idade em que tais hormonas seriam necessárias, e na sua versão original, não em imitações sintéticas!

Estamos portanto a considerar de repente essenciais hormonas que não foram vistas como essenciais quando realmente o eram. Agora que não as precisamos, de repente temos que as tomar. 

Engraçado como em ambos casos, quem sai beneficiado é a indústria farmacêutica: basicamente, se fosse por ela devíamos tomar hormonas sintéticas a vida toda, com a excepção da gravidez. E isto acaba por acontecer em milhões de mulheres.

De qualquer forma, o argumento de que é primeira vez que as mulheres encaram a menopausa, é totalmente falaz. A alta taxa de mortalidade infantil faz - numa média matemática - parecer que a esperança de vida na antiguidade fosse baixíssima. Mas uma vez sobrevividas à infância, uma proporção significativa de mulheres atingia a idade da menopausa.


A existência de um período pós-reprodutivo prolongado é característica da espécie humana há milénios, e as avós não são de todo um fenómeno exclusivo da era contemporânea.  

A menopausa não é um mismatch evolutivo. Ela sempre existiu. Aliás, antigamente ela chegava bem mais cedo do que agora. E isto compensa o aumento da longevidade após a menopausa que nós vivemos agora.


Resumindo:

-O ciclo menstrual, ou seja, o facto de termos tantos ciclos menstruais no arco das nossas vidas, sim, é um mismatch evolutivo. Porém, a solução de os suprimir e substituir com algo sintético traz mais problemas que benefícios.


-A menopausa não é um mismatch evolutivo. Ponto.

O maior mismatch que existe é entre a realidade da nossa fisiologia e a pressão social que faz que os nossos corpos sejam sempre de alguma forma considerados deficientes.

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A armadilha do natural