O colagénio
Uma boa parte dos pedidos de conselhos e orientações que recebo nas consultas têm a ver com os suplementos com fins cosméticos. E o número um destes últimos anos é o colagénio. Não admira, vista a quantidade de produtos de colagénio publicitados em todo lado, incluindo shots e águas (!!!) com colagénio. Por isso, quando se tratou de escolher o suplemento a examinar nesta rubrica, não tive dúvidas. Queres saber se os suplementos de colagénio servem para alguma coisa? Ou seja, para melhorar a qualidade da pele e/ou melhorar a saúde articular?
A minha resposta breve é: Não.
A longa é a seguinte:
O nosso corpo é composto por proteínas: músculos, ossos, tecido conjuntivo (pele, cartilagens, ligamentos, tendões, etc.), e até hormonas, neurotransmissores, enzimas, etc., tudo isso são proteínas.
As proteínas são feitas de “blocos de construção”, ou seja os aminoácidos.
O nosso corpo utiliza aminoácidos para construir qualquer proteína daquelas acima mencionadas.
Qualquer que seja a proteína da dieta ou do suplemento que recebemos, ela é decomposta em aminoácidos individuais, transitoriamente enviados para uma reserva ou “pool de aminoácidos". Desta reserva, o nosso corpo retira os aminoácidos necessários para construir as proteínas de que necessita. Sendo o colagénio uma proteína, assim que entrar, é decomposto em aminoácidos, que depois serão utilizados para várias estruturas e talvez sim, para construir o nosso próprio colagénio à medida que precisamos dele.
É claro que os suplementos de colagénios não são feitos da proteína normal de colagénio, mas sim de péptidos hidrolizados de colagénio.
O colagénio normal é uma proteína estrutural grande e insolúvel, enquanto os peptídeos de colagénio hidrolisado são fragmentos pequenos e solúveis derivados do colagénio, que são mais facilmente absorvidos e potencialmente bioativos.
É por isso que no google vês muitos “estudos” que afirmam que sim senhora se absorvem, e que “há estudos científicos que demonstram benefícios para a pele e para as articulações”.
Mas a investigação sobre suplementos de colagénio é quase toda financiada por indústrias relacionadas obviamente torcem por um resultado positivo dos estudos.
O que acontece quando filtramos os estudos e nos focamos apenas nos estudos independentes?
A análise mais recente e rigorosa dos ensaios clínicos sobre suplementos de colagénio (uma revisão sistemática com meta-análise que teve em conta tanto a qualidade dos estudos como a sua fonte de financiamento) chegou a uma conclusão muito pouco entusiasmante. Nos estudos bem desenhados e financiados de forma independente, o colagénio não mostrou melhorias claras na hidratação da pele, na elasticidade ou na redução das rugas. Os resultados positivos surgiram sobretudo em estudos financiados pela indústria ou com menor rigor metodológico, o que levanta dúvidas sobre a fiabilidade dessas conclusões e aponta para um risco elevado de viés.
No que diz respeito às articulações, o cenário é semelhante. Embora alguns estudos indiquem uma ligeira redução da dor ou pequenas melhorias na função articular, estes efeitos tendem a ser modestos e de significado clínico discutível. Além disso, ensaios clínicos mais recentes, independentes e bem controlados, incluindo estudos em pessoas com osteoartrose do joelho, não encontraram diferenças relevantes entre a toma de colagénio e o placebo ao longo de 12 semanas, quer na dor, quer na funcionalidade das articulações.
Em resumo, apesar da popularidade dos suplementos de colagénio, a evidência científica mais sólida até ao momento não confirma benefícios claros nem consistentes para a pele ou para as articulações.
E que tal o colagénio vegan que vi nas lojas?
Atualmente, não existem suplementos de “colagénio vegan” que contenham realmente a proteína do colagénio obtida a partir de plantas ou fungos. Na prática, os produtos chamados de colagénio vegan enquadram-se em duas grandes categorias:
(1) suplementos que fornecem aminoácidos e outros nutrientes que ajudam o próprio corpo a produzir colagénio, e
(2) proteínas semelhantes ao colagénio, criadas em laboratório através de processos de fermentação com microrganismos.
No primeiro caso, falamos de suplementos de origem vegetal que incluem aminoácidos como a glicina, a prolina e a lisina, bem como nutrientes importantes como a vitamina C, o cobre e o ferro, todos eles necessários para o organismo fabricar colagénio. Normalmente estes suplementos são são de facto vendidos como “Vegan Collagen Booster” ou nomes parecidos, Não fornecem colagénio nem péptidos de colagénio, apenas os “ingredientes” que o corpo usa para o produzir.
A segunda categoria recorre à biotecnologia: bactérias ou leveduras geneticamente modificadas são usadas para produzir proteínas semelhantes ao colagénio (conhecidas como proteínas tipo colagénio bacteriano). Estas proteínas conseguem imitar algumas das características estruturais e funcionais do colagénio de origem animal e estão a ser estudadas sobretudo para aplicações médicas e industriais.
Neste momento, no mercado é possível encontrar duas formas patenteadas: o Vollagen, e o Vecollal.
O problema é que, de forma geral, os benefícios atribuídos ao chamado colagénio vegan têm a mesma falta de evidência clínica sólida.
A maioria das alegações baseia-se no papel conhecido dos aminoácidos e micronutrientes na produção de colagénio, e não em estudos clínicos diretos com colagénio vegan.
Sintetizando:
- Más notícias:
1. A produção de colagénio depende muito da genética e varia entre grupos raciais e étnicos, principalmente por causa de diferenças genéticas, celulares e estruturais da pele.
2. Os suplementos de colagénio não parecem servir para nada ou quase nada.
3. Os suplementos de colagénio vegan também não. E são mais caros.
- Boas notícias:
1. A dieta desempenha um papel fundamental na produção endógena de colagénio, fornecendo os aminoácidos e cofatores necessários para a biossíntese de colagénio.
2. Comer mais vegetais, leguminosas, cereais integrais, fruta, e vais obter proteinas, vitamina C, zinco, selênio, anti-oxidantes, ajuda na produção de colagénio.
3. Com o dinheiro que vais poupar ao deixar de comprar suplementos inúteis, podes fazer muitas coisas agradáveis: jantar com amigas, inscrever-te num ginásio, receber massagens, consultar uma psicóloga (ou uma nutricionista)…
Pronto.
De nada.
Referências
1. Effects of Collagen Supplements on Skin Aging: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials.The American Journal of Medicine. 2025. Myung SK, Park Y.New
2.Efficacy of Combined Undenatured Type II Collagen and Hydrolysed Collagen Supplementation in Knee Osteoarthritis: A Randomised Controlled Trial. Scientific Reports. 2025. Yuenyongviwat V, Anusitviwat C, Tuntarattanapong P, Hongnaparak T, Iamthanaporn K.New
3.Effect of Collagen Supplementation on Knee Osteoarthritis: An Updated Systematic Review and Meta-Analysis of Randomised Controlled Trials. Clinical and Experimental Rheumatology. 2025. Simental-Mendía M, Ortega-Mata D, Acosta-Olivo CA, et al.
