O ómega 7
Depois do colagénio, era inevitável. Nos últimos tempos tenho falado bastante do ómega 7. Ação: hidratação por dentro, da pele às mucosas, incluindo os olhos secos e a secura vaginal. Coisas que interessam a muita gente que me aparece na consulta, e por isso vale a pena ir ver o que está mesmo lá dentro.
Começo já por dizer que aqui há alguma coisa. A nível de evidência ainda é pouca e modesta, mas é um suplemento que gosto, que acho útil.
O que é o ómega 7, afinal?
O ómega 7 é o ácido palmitoleico, um ácido gordo monoinsaturado. Nos suplementos vem quase sempre do óleo de espinheiro marítimo (Hippophae rhamnoides), um arbusto de bagas cor de laranja que cresce na Ásia e no norte da Europa.
Há dois óleos diferentes a sair da mesma baga, e isto é relevante: o óleo da polpa é o que é rico em ácido palmitoleico, enquanto o óleo das sementes é sobretudo ácido linoleico e alfa linolénico. Muitos produtos no mercado misturam os dois, outros só trazem um. Vale a pena olhar para o rótulo.
E a regra da casa mantém-se: aqui só contam estudos feitos em humanos. Existe uma montanha de investigação sobre este óleo em células e em ratinhos, com mecanismos bonitos e resultados entusiasmantes. Mas continuam a ser dados sobre ratinhos, portanto é importante selecionar os estudos apenas sobre humanos.
Primeiro tema: a pele
Há um ensaio clínico aleatorizado e duplo cego em que voluntários saudáveis tomaram cápsulas de óleo de espinheiro marítimo durante três meses. No fim, quem tomou o óleo perdia menos água através da pele (a perda de água transepidérmica, que é a forma de medir se a barreira cutânea está a funcionar) e tinha melhor elasticidade cutânea.[1]
Do lado tópico, um grupo de investigadores testou em voluntários um creme com extrato do fruto. Com aparelhos que medem estes parâmetros na pele, documentaram melhoria da elasticidade facial, redução do sebo, menos perda de água, mais hidratação e ainda redução da melanina e da vermelhidão. Num outro ensaio, em pessoas com acne ligeira a moderada, o mesmo tipo de creme combinado com Cassia fistula reduziu a produção de sebo.[2]
E antes que faças a pergunta: não, isto não quer dizer que seque a pele. Sebo e hidratação não são a mesma coisa. O sebo é a gordura que as glândulas sebáceas põem à superfície. A hidratação depende dos lípidos que estão entre as células da camada córnea e que seguram a água lá dentro. Podes ter uma pele oleosa e desidratada ao mesmo tempo, e isso vê se todos os dias na consulta. Nestes ensaios, aliás, as duas coisas aconteceram em simultâneo: menos sebo à superfície e, ao mesmo tempo, menos perda de água e mais hidratação medida. Se o creme estivesse a secar a pele, a perda de água teria aumentado. Aumentou não, diminuiu.
O ácido palmitoleico chegou a ser testado em pensos para doentes queimados na China, com resultados comparáveis aos do petrolato, que é o material clássico para esse efeito.[3]
Tudo isto é interessante. É também tudo muito incipiente: poucos ensaios, com poucos participantes, curtos, e vários deles saídos das mesmas equipas que desenvolveram as formulações. Mas o que é claro é de que o óleo mexe com a função de barreira, o que aliás faz sentido do ponto de vista da composição em ácidos gordos.
Segundo tema: os olhos secos
Este é provavelmente o capítulo com melhor evidência de todos, e curiosamente é o que menos aparece na publicidade.
Um ensaio aleatorizado, duplo cego e controlado por placebo acompanhou 100 pessoas com queixas de olho seco, que tomaram 2 g por dia de óleo de espinheiro marítimo ou placebo durante três meses, do outono ao inverno. A osmolaridade do filme lacrimal, que é o marcador central do olho seco, aumentou em toda a gente ao longo da estação fria. Mas aumentou significativamente menos em quem tomou o óleo. Houve também efeito sobre a intensidade máxima da vermelhidão e do ardor.[4]
Repara bem no que este estudo mostra, porque é subtil e é frequentemente mal contado: o óleo não melhorou os olhos, travou o agravamento que o inverno produz. É um efeito protetor, não reparador. Mas é um efeito real, medido com um aparelho, não com um questionário de satisfação.
Terceiro tema: a síndrome geniturinária da menopausa
É aqui que a coisa fica mais interessante, e curiosamente é aqui que quase ninguém está a vender o produto.
O ensaio de referência é finlandês. Envolveu 116 mulheres na pós-menopausa com queixas de secura, prurido ou ardor vaginal, que tomaram 3 g por dia de óleo de espinheiro marítimo por via oral ou placebo, durante três meses. A probabilidade de haver melhoria da integridade do epitélio vaginal foi cerca de três vezes maior no grupo que tomou o óleo. O índice de saúde vaginal também melhorou, mas essa diferença não chegou a atingir significado estatístico.[5]
Mais recentemente, um estudo chinês testou um supositório vaginal composto, que incluía óleo de sementes de espinheiro marítimo, em mulheres na pós menopausa, durante duas semanas, antes de fazerem colposcopia. A comparação foi com creme de estrogénio e com nenhum tratamento. O supositório e o estrogénio melhoraram de forma equivalente a integridade do epitélio vaginal, e o grupo do supositório não teve os efeitos indesejados que apareceram com o estrogénio, como desconforto mamário e dores de cabeça.[6]
E a dose?
Esta é a parte que mais me interessa e a que quase nunca é bem explicada.
Há uma coisa que convém saber: quase todos estes ensaios foram feitos com o mesmo óleo padronizado, um extrato finlandês obtido por CO2 supercrítico a partir das bagas e das sementes, designado SBA24. É o óleo que está nas cápsulas de várias marcas que encontras à venda em Portugal. Pharma Nord é um exemplo (não tenho comissões, já sabes que ninguém jamais me iria contratar como influencer, e sobretudo nem eu quero). O tipo exato de óleo não é um pormenor mas sim a razão pela qual se pode sequer comparar doses entre estudos.
E as doses testadas foram estas:
Olhos secos: 2 g por dia, três meses.
Atrofia vaginal: 3 g por dia, três meses.
Traduzindo para cápsulas de 500 mg, que é o formato habitual, falamos de 4 a 6 cápsulas por dia. Os rótulos costumam recomendar 4 cápsulas diárias nas primeiras duas semanas e depois 2 cápsulas de manutenção. Quem toma uma ou duas cápsulas buscando resultados na secura vaginal está, na prática, a fazer uma dose que nunca foi estudada para esse fim. E três meses é mesmo o mínimo: todos os ensaios com resultado positivo duraram esse tempo.
Um aviso que eu própria tenho de dar
Depois do que escrevi sobre o colagénio, seria incoerente não aplicar aqui o mesmo filtro. Uma parte importante desta investigação foi conduzida com autores ligados ao produtor do óleo e com financiamento do mesmo lado. Isso não invalida os resultados, mas obriga a lê-los com a mesma desconfiança com que leio os estudos do colagénio.
A diferença é que no colagénio existem ensaios independentes que contradizem os financiados pela indústria. Aqui não existem quase ensaios nenhuns, independentes ou não. É uma situação diferente, e não é a mesma coisa que um resultado negativo. É simplesmente um campo pouco investigado, com um sinal inicial que merecia ser confirmado por quem não tenha nada a ganhar com isso.
Mas sobretudo, na minha recomendação de dar uma possibilidade a este suplemento, pesa a minha experiência empírica em mim própria e nas minhas clientes, que é bastante positiva.
Sintetizando:
Más notícias:
Para a pele, a evidência em humanos é escassa, com ensaios pequenos, curtos e frequentemente ligados a quem produz as formulações. Dá para dizer "promissor", não dá para prometer.
Boa parte da investigação com resultado positivo tem o produtor do óleo lá dentro, seja como autor, seja como financiador.
A dose de manutenção sugerida nos rótulos fica abaixo da que foi testada, sobretudo para a mucosa vaginal, e ninguém te diz isso.
Boas notícias:
No olho seco e na atrofia vaginal existe um sinal real, modesto mas consistente, apoiado em ambos os casos por ensaios aleatorizados, duplo cegos e controlados por placebo. Entre os suplementos que se vendem para fins cosméticos, isso já é raridade.
O perfil de segurança é bom e o óleo não tem atividade hormonal, o que o torna uma opção a considerar para mulheres que não podem ou não querem fazer terapêutica estrogénica.
Se decidires experimentar, agora já sabes o que procurar: óleo total de bagas e sementes, 2 a 3 g por dia conforme o objetivo, e paciência para esperar três meses antes de julgar o resultado. Meia dose durante três semanas não conta como ter experimentado.
Pronto.
Até ao próximo suplemento.
Referências
The Role of Sea Buckthorn in Skin and Mucosal Health: A Review From an Anti-Inflammatory Perspective. Frontiers in Pharmacology. 2025. Song X, Sun X, Yuan H, Tang Y, Zheng F.
Anti-Aging Potential of Phytoextract Loaded-Pharmaceutical Creams for Human Skin Cell Longetivity. Oxidative Medicine and Cellular Longevity. 2015. Jadoon S, Karim S, Bin Asad MH, et al.
Vegetable Butters and Oils in Skin Wound Healing: Scientific Evidence for New Opportunities in Dermatology. Phytotherapy Research. 2020. Poljšak N, Kreft S, Kočevar Glavač N.
Oral Sea Buckthorn Oil Attenuates Tear Film Osmolarity and Symptoms in Individuals with Dry Eye. The Journal of Nutrition. 2010. Larmo PS, Järvinen RL, Setälä NL, Yang B, Viitanen MH, Engblom JRK, Tahvonen RL, Kallio HP.
Effects of Sea Buckthorn Oil Intake on Vaginal Atrophy in Postmenopausal Women: A Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled Study. Maturitas. 2014. Larmo PS, Yang B, Hyssälä J, Kallio HP, Erkkola R.
A Prospective Study of Vaginal Topical Pretreatment of Compound Sea-Buckthorn Oil Suppository in Postmenopausal Women Prior to Colposcopy. Scientific Reports. 2025. Yu Y, Li Q, Cao Y, et al.
The Beneficial Health Aspects of Sea Buckthorn (Elaeagnus Rhamnoides (L.) A.Nelson) Oil. Journal of Ethnopharmacology. 2018. Olas B.
